CIÊNCIA EM APOIO A UMA ECOLOGIA INTEGRAL PARA A AMAZÔNIA: A URGENTE NECESSIDADE DE UMA NOVA BIOECONOMIA DE FLORESTA EM PÉ

novembro 23, 2019

Por Carlos Nobre* 

A floresta Amazônica é um “coração biológico” para a Terra, mas encontra-se crescentemente ameaçada. O aproveitamento sustentável de produtos como açaí, castanha, babaçu e cacau da floresta e de sistemas agroecológicos vem trazendo melhor qualidade de vida a milhares de agricultores familiares e comunidades extrativistas na Amazônia e até mesmo a alguns poucos povos indígenas.

Mas há uma oportunidade emergente de desenvolver um novo paradigma sustentável que garanta que a floresta valha muito mais em pé do que derrubada. Pela primeira vez na história recente, a tecnologia pode deixar de ser um entrave. Aparece a oportunidade de desenvolver bioindústrias na Amazônia em várias escalas, desde a local, em pequenas comunidades, até em cidades, para agregar valor aos produtos da floresta.

Utilizando a melhor ciência e avançadas tecnologias da Quarta Revolução Industrial, esta nova abordagem pode salvar a floresta, proteger os ecossistemas Amazônicos e os povos indígenas e populações tradicionais, e ainda possibilitar atividades economicamente sustentáveis em uma bioeconomia de floresta em pé e rios fluindo através do aproveitamento dos incomensuráveis ativos biológicos presentes na riquíssima biodiversidade da floresta tropical.

Este novo paradigma de desenvolvimento sustentável deve pautar-se em ser socialmente inclusivo e justo, combinando conhecimentos científicos e conhecimentos tradicionais para empoderar comunidades tradicionais e indígenas, majoritariamente as mulheres e jovens adultos, e fazer tais tecnologias servirem ao bem-estar humano e proteção das florestas. É fazer as tecnologias servirem a tais necessidades e não ao contrário, como no modelo tecnocrático atual de uso intensivo e insustentável dos recursos naturais: “o fogo que destrói a floresta e seus povos”.

Esta prática exige levar tecnologias modernas—que tornaram-se acessíveis, amigáveis, baratas e duráveis--às cadeias de inúmeros produtos da floresta em pé para as milhares de comunidades e povos da floresta e capacitá-los a utilizá-las—em pacífica combinação com os conhecimentos tradicionais--em um novo modelo de bioindústria para a Amazônia de modo que a agregação de valor lhes traga melhor qualidade de vida, passando a fornecer produtos industrializados e não somente produtos primários como é hoje. Exige igualmente urgente esforço da comunidade científica e dos governos dos países Amazônicos em apoio à busca de soluções plenamente sustentáveis.

O futuro da Amazônia está nas mãos de todos nós, mas principalmente depende de abandonarmos imediatamente o modelo corrente que destrói a floresta, não traz bem-estar e coloca este imenso tesouro natural e seus guardiões em risco de desaparecer. Devemos juntos—mas liderados pelos 30 milhões de habitantes da região—e com apoio do conhecimento, tornar a Amazônia a “Potência Ambiental da Sociobioversidade”, mantendo e valorizando a sabedoria dos povos indígenas e populações tradicionais, reduzindo o risco das mudanças climáticas com a manutenção dos serviços ecossistêmicos únicos com que ela nos brinda, priorizando a proteção da biodiversidade, em resumo, uma Amazônia de floresta em pé, rios fluindo e seus povos felizes...

Este texto é acompanhado por uma avaliação científica mais completa realizada por um grupo de cientistas principalmente da Amazônia: “Scientific Framework to Save the Amazon” (“Marcos Científicos para Salvar a Amazônia”).
LEIA AQUI A AVALIAÇÃO CIENTÍFICA (em inglês)

*Carlos Nobre - cientista e membro do Conselho Consultivo da Conservação Internacional

É natural de São Paulo, Brasil, graduou-se em Engenharia Eletrônica pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica, e trabalhou em Manaus no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA). Fez um doutorado em Meteorologia no Massachusetts Institute of Technology. Foi alto conselheiro científico do Painel de Sustentabilidade Global do Secretário-Geral das Nações Unidas. É membro da Academia Brasileira de Ciências e da Academia Mundial de Ciências e membro estrangeiro da Academia de Ciências dos Estados Unidos da América. Foi um dos autores principais do Quarto Relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, pelo que recebeu, junto com toda a equipe envolvida, o Prêmio Nobel da Paz em 2007.

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