Entrevista sobre a RPPN Mitra do Bispo

 

Belo Horizonte, 24 de outubro de 2013 —

O O Programa de Incentivo às Reservas Particulares do Patrimônio Natural (RPPNs) da Mata Atlântica, parceria entre Conservação Internacional e Fundação SOS Mata Atlântica, está comemorando 10 anos em 2013! Nesse período o programa apoiou a criação de 392 novas reservas particulares – sendo 194 já reconhecidas – e a gestão de outras 101 reservas já existentes, num total de 57 mil hectares protegidos. As RPPNs são unidades de conservação criadas pela vontade do proprietário rural, que decide transformar sua terra em uma reserva e assume compromisso com a conservação da natureza.

 

Como parte das celebrações do aniversário do Programa, o blog SOS Mata Atlântica está publicando até o fim do ano, entrevistas com proprietários de RPPNs que foram apoiados pela iniciativa. Esse é décimo quinto post da série. Conheça a RPPN Mitra do Bispo, em Bocaína de Minas (MG), na entrevista com Carlos Alberto Bello Simas, proprietário da RPPN. A reserva tem um vasto banco de imagens que é usado como alternativa de sustentabilidade para a área, e Carlos Alberto mostra na entrevista como a força visual das imagens envolvem as pessoas e as motiva para a conservação. Boa leitura!

 

RPPN Mitra do Bispo

Área 35 hectares

Município Bocaina de Minas (MG)

 

Entrevistado: Carlos Alberto Bello Simas – Proprietário da RPPN Mitra do Bispo

 

1)     Para você, qual a importância das Reservas Particulares do Patrimônio Natural, as chamadas RPPNs?

 

Os serviços ambientais gerados em uma floresta preservada vão desde o banco de genoma de sua biodiversidade, à retenção de carbono e a produção de água. Um bem para todos.

Quando um proprietário decide transformar sua terra em uma reserva de caráter perpétuo ele oficialmente declara seu amor por aquela área.  Em uma Unidade de Conservação familiar, como a nossa, a proteção é cuidadosa e o envolvimento com a floresta é cada vez maior.

 

2)     Você acha que as pessoas, sobretudo os proprietários de terra, em geral, sabem o que é uma RPPN e que qualquer cidadão pode criar uma?

 

Hoje o modelo RPPN vem sendo cada vez mais reconhecido, mas sinto que existe uma barreira cultural que ainda não motiva os moradores tradicionais para a proteção de suas florestas.

Apesar dos inúmeros benefícios que uma reserva traz para o ambiente e para a sociedade, ainda não existem compensações oficiais (governamentais).  Um simples desconto do ITR é irrisório para essa importante decisão.

 

3)          Como e quando surgiu o seu interesse em criar uma RPPN?

 

Desde que compramos a propriedade de uma antiga serraria (que estava na iminência de devastar aquela área), decidimos preservar a floresta definitivamente. Dez anos depois, em 1999, conseguimos homologar a área como RPPN e oficializar nossa decisão.

 

4)       Você teve dificuldades para a criação da sua RPPN? Se sim, quais?

 

Não  tive dificuldades. Já tinha todos os documentos requisitados e o processo, desde a visita do IBAMA até a publicação no diário oficial foi relativamente rápido.

 

5)       Como você conheceu o Programa de RPPNs da Mata Atlântica? Qual foi o seu interesse em participar do edital?

 

Conheci o programa em um encontro de ambientalistas em Brasília e logo percebi a importância de um edital que apoiava diretamente o proprietário da RPPN, sem necessidade de participação de outras instituições e  propondo o apoio a iniciativas inovadoras.

 

6)     Quantas edições você já participou? Quantas você ganhou?

 

Participei de 5 editais e ganhei 4.

 

7)      Qual foi o apoio do programa à sua reserva?

 

Em 2003, implantamos o Projeto Ação do Olhar; depois realizamos o Plano de Manejo da RPPN Mitra do Bispo; em seguida, Plano de Negócios, e atualmente  estamos concluindo o Georreferenciamento da RPPN.

 

8)     Como os recursos do edital ajudaram sua propriedade e a Mata Atlântica?

 

No primeiro edital desenvolvemos e construímos uma plataforma para pesquisas no dossel da floresta, e iniciamos um banco de fotografias e filmagens sobre o ecossistema daquele nicho. Desse acervo, organizamos material para pesquisas científicas e montamos as bases de um modelo de sustentabilidade para a reserva. Usamos fotos em folders, cartazes, estampas para tecidos e outras aplicações. O apoio em equipamentos e instalações a uma proposta inovadora como essa foi fundamental para montarmos uma metodologia adequada a nossa UC. Os resultados foram bastante positivos e foram expostos (tecidos com fotos da RPPN , uma plataforma de arborismo Octa III e descrições do projeto) na Bienal Brasileira de Design de Curitiba.

O conceito de “Fazenda Produtora de Imagens” norteou nosso Plano de Manejo, aprovado pelo ICMBio em 2010 e também realizado com apoio de um edital do Programa RPPN. A meta de nosso projeto para a RPPN é gerar conhecimento e sustentabilidade em uma floresta intocada, com perda de biodiversidade zero.  A colheita de imagens é o mecanismo que buscamos para isso.

 

9) Como isso funciona?

 

Mantemos um acervo visual da biodiversidade para produção de material de comunicação ambiental e peças de design gráfico. Desde o primeiro projeto iniciamos a montagem de um banco de fotos e filmagens. Com esse material geramos inúmeras peças de design de superfície, padronagens e aplicações gráficas. Iniciamos também um acervo de ilustrações botânicas, especialmente da RPPN e seu entorno.

 

10) Esse material é disponibilizado?

 

O material para pesquisa e uso científico vem sendo formatado de acordo com as orientações de um estudo aprofundado no Plano de Negócios de nosso Banco de Imagens. O acervo será disponibilizado oportunamente quando conseguirmos concluir a implantação deste plano. Atualmente fornecemos material para estudos acadêmicos e consultas diretas de interessados.

Já tivemos experiência de uso das imagens da RPPN inclusive em produto: as imagens estamparam uma coleção de biquínis.  Nos já trabalhávamos com design de superfície, em especial com estampas para roupas de praia. Então, os recursos digitais abriram a possibilidade de aplicar imagens da mega diversidade visual da Mata Atlântica diretamente em estampas. O sucesso dos resultados mostraram o acerto da escolha e passaram a ser parte do programa de sustentabilidade econômica da RPPN.

Isso mostra como a força visual das imagens envolvem as pessoas e inserem naturalmente os compradores no processo conservacionista.

 

11)        De maneira geral, como você avalia as atividades realizadas pelo Programa de Incentivo às RPPN?

 

O proprietário de uma RPPN assume as responsabilidades de vigilância e proteção da floresta. Sua presença na reserva é fundamental.

Incêndios, caça ou vandalismos são problemas freqüentemente enfrentados. Gerar valores sustentáveis na própria RPPN é um desafio.

Em todos esses aspectos as atividades apoiadas pelo Programa tiveram resultados concretos e bastante representativos.

 

12)   Você pretende participar de novas edições?

 

Sim. A busca por conhecimento, por sustentabilidade (ecológica e econômica)  e por soluções inovadoras é constante e necessária.  O  programa tem sido uma alavanca para  nossas propostas e os resultados alcançados encorajam novos passos.

 

Sobre Reservas Particulares

 

Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) é uma categoria de unidade de conservação criada pela vontade do proprietário rural, que decide transformar sua terra em uma reserva e assume compromisso com a conservação da natureza.
As RPPNs são importantes para proteger as riquezas naturais e ambientes históricos, além de ajudar na preservação da água, na regulação do clima, na limpeza do ar, no desenvolvimento de pesquisas científicas dentre outros serviços ambientais. Atividades recreativas, turísticas, de educação e pesquisa são permitidas na reserva, desde que sejam autorizadas pelo órgão ambiental responsável pelo seu reconhecimento.
Dessa forma, muitas RPPNs geram renda e conhecimento em sua região, com atividades como ecoturismo, educação ambiental e artesanato.
O Programa de Incentivo às RPPNs da Mata Atlântica apoia através de editais os proprietários interessados em criar suas reservas particulares. O programa é uma parceria entre as ONGs CI-Brasil e Fundação SOS Mata Atlântica. O programa completa 10 anos em 2013, tendo apoiado nesse período a criação de 361 novas RPPNs – sendo 194 já reconhecidas – e a gestão de outras 101 reservas já existentes.
 
Saiba mais:
Programa de Incentivo às RPPNs
Como participar
Outras informações: www.reservasparticulares.org.br e www.icmbio.gov.br/portal/servicos/crie-sua-reserva.html