Expedição da CI no Suriname revela 60 espécies potencialmente novas e ecossistemas vitais para serviços ambientais

10/2/2013

Explorando pela primeira vez a mais remota floresta no país mais verde do mundo, cientistas do Programa de Avaliação Rápida da Conservação Internacional fazem descobertas importantes para a biodiversidade; destaque para o registro de fontes de água doce q

Em 2012, uma equipe de biólogos internacionais saiu em expedição durante três semanas para explorar uma região montanhosa, localizada no sudeste do Suriname – uma área nunca antes visitada, praticamente isolada e sem qualquer influência humana –, e descobriram uma variedade de serviços ecossistêmicos, cuja proteção é essencial para a segurança da água, a superação das mudanças climáticas e o desenvolvimento sustentável do Suriname. A expedição científica também documentou uma incrível biodiversidade, incluindo 60 espécies que são aparentemente novas para a ciência, além de espécies “únicas” que podem não existir em outro lugar da Terra. 

Após criteriosa análise dos dados, o grupo de 16 cientistas – sob a liderança do Programa de Avaliação Rápida (RAP, da sigla em inglês) da Conservação Internacional, acaba de publicar seus resultados. Entre as principais descobertas estão fontes importantes de água doce. Na região montanhosa, estão localizadas as nascentes de alguns dos principais rios do Suriname, que são vitais para: o transporte, o fornecimento de alimentos (especialmente peixes) e  o abastecimento de água potável para 50 mil pessoas que vivem tanto nas proximidades do rio, quanto nos arredores de Paranimbo, capital do país. 

 
Essas nascentes também mantêm a produção de energia, a agricultura e outras atividades econômicas. Cientistas da CI constataram que enquanto outras partes do Suriname tendem a se tornar mais secas , a parte sudeste deve resistir melhor às mudanças climáticas. Por essa razão, essa é uma área crítica para garantir os fluxos sustentáveis de água no futuro. Assegurar que essas nascentes permaneçam intactas é vital para as pessoas e para a economia do país, além de constituir um importante recurso futuro para a região e para o mundo.  

 
Segundo John Goedschalk, diretor executivo da Conservação Internacional do Suriname, “as densas florestas do Suriname, com baixo índice de desmatamento e rios espetaculares, nos colocam em uma posição verdadeiramente única para nos tornarmos um modelo global de desenvolvimento sustentável. Nós podemos ser exportadores de água em um mundo que está sofrendo cada vez mais com a seca e a escassez desse recurso, mas se esgotarmos e poluirmos esses tesouros biológicos, o nosso país e o resto do mundo terão um recurso hídrico insignificante. Em um planeta que está a caminho de ultrapassar em meados deste século nove bilhões de habitantes, vamos precisar de cada gota de água doce que pudermos obter”.

 
O Suriname está localizado no Escudo das Guianas, uma vasta área silvestre da América do Sul, que contém mais de 25% das florestas tropicais do mundo. O país tem uma população relativamente pequena e ainda mantém 95% de sua cobertura florestal, porém sofre com a pressão de projetos de mineração, construção de estradas e barragens. Por mais de 20 anos, a Conservação Internacional tem trabalhado em parceria com o governo do Suriname e comunidades locais para avaliar cientificamente e proteger o seu capital natural, para que sirva como “motor” para o desenvolvimento sustentável do país e da região.

 
A CI foi fundamental para a criação de 1,6 milhão de hectares da Reserva Natural Central do Suriname, considerada então a maior extensão de floresta tropical conservada. As intactas florestas do Sudeste do Suriname fornecem um corredor biológico que liga a reserva natural a outras áreas protegidas adjacentes e às terras indígenas de países vizinhos, permitindo o fluxo de animais e plantas que é essencial para a permanência dessas espécies em longo prazo. Suas florestas e rios também fornecem uma fonte essencial de alimentos, materiais de construção e medicamentos para as tribos locais Wayana Ameridian e Trio. 

 
“O Suriname é um dos últimos lugares onde ainda existe a oportunidade de conservar as enormes extensões de floresta virgem e rios com águas cristalinas, onde a biodiversidade está prosperando. Garantir a preservação destes ecossistemas não é apenas vital para o povo do Suriname, mas pode ajudar o mundo a suprir a crescente demanda de água e alimentos, bem como a redução dos impactos das mudanças climáticas”, afirma o Dr. Trond Larsen, ecologista tropical e diretor do RAP.

 
A equipe de pesquisadores explorou quatro sítios localizados no alto da bacia do rio Palumeu, indo de baixas planícies inundadas para picos de montanhas isoladas. Eles receberam o apoio de 30 indígenas oriundos de comunidades próximas para carregar equipamentos e alimento, montar os acampamentos e orientar a equipe dentro da floresta. De Paramaribo, os cientistas fretaram um avião para uma aldeia no sudeste da Suriname e de lá chegaram ao seu primeiro acampamento de helicóptero.

 
Os cientistas coletaram dados sobre a qualidade da água e sobre uma surpreendente quantidade de espécies, incluindo plantas, formigas, besouros, gafanhotos, peixes, anfíbios, aves e mamíferos, totalizando em 1.378 espécies. Os resultados mostraram uma qualidade elevada da água, embora algumas amostras apresentassem mercúrio acima dos níveis seguros para o consumo humano, mesmo não havendo mineradoras na região. “Provavelmente esse mercúrio advém das atividades de mineração que ocorre nos países vizinhos. Isso demonstra que mesmo os lugares remotos estão suscetíveis a atividades de outros países”, explica Dr. Larsen.

 
Após o regresso dessa intensa pesquisa de três semanas, incluindo um acampamento alagado depois de uma noite chuvosa e um helicóptero com problemas mecânicos, a Dra. Leeanne Alonso, líder da expedição, especialista em formigas, ex-cientista da CI e atualmente da Global Wildlife Conservation, declara: “Eu tenho conduzido expedições em todo o mundo, mas nunca vi florestas tão belas, primitivas e livres de qualquer influência humana. O Sudeste do Suriname é um dos últimos lugares na Terra onde ainda há uma extensa área de floresta virgem. O elevado número de novas espécies descobertas é uma prova da incrível biodiversidade dessas florestas que nós apenas começamos a descobrir.”

 
Entre as 60 espécies identificadas como potencialmente novas para a ciência estão seis rãs, uma cobra, 11 peixes e muitos insetos, incluindo:

 
- o “sapo-cacau” (Hypsiboas sp.), um elegante sapo cor de chocolate que vive em árvores e usa os “discos redondos” encontrados em seus dedos das mãos e pés para subir habilmente nas copas das árvores. "Como acontece com outros anfíbios, sua pele semi-permeável o torna altamente sensível às mudanças no meio ambiente, especialmente na água doce. Com mais de 100 espécies de rãs provavelmente extintas nas últimas três décadas, a descoberta desta nova espécie é especialmente encorajadora ", revela Larsen.

 
- um novo tipo de “olho-de-fogo” (Hemigrammus aff. ocellifer), intimamente relacionado a um peixe muito apreciado pelos entusiastas do aquário. As bacias superiores também servem como uma importante área de desova de espécies migratórias, da qual pessoas de todo o Suriname dependem.  

 
- “besouro-liliputiano” (Canthidium cf. minimum), trata-se de um besouro vermelho-rubi bem pequeno medindo apenas 2,3 milímetros, provavelmente é o menor besouro de esterco do Escudo das Guianas e o segundo menor da América do Sul. Sua antena, semelhante a um chifre, confere ao inseto um olfato aguçado. “Os besouros de esterco desempenham importantes papéis ecológicos, pois ajudam a manter os ecossistemas saudáveis. Ao enterrar o esterco, eles regulam parasitas e doenças, dispersam sementes e reciclam os nutrientes para promover o crescimento da planta”, explica o Dr. Larsen. 

 
A expedição teve o apoio financeiro da Suriname Conservation Foundation e o grupo de cientistas do RAP contou com membros da Universidade do Suriname Anton de Kom, do Celos, da Conservação Internacional, da Global Wildlife Conservation, do Museu de Zoologia Comparada da Universidade Harvard, do Museu de Ciências Naturais da Carolina do Norte, do Instituto de Biodiversidade da Universidade do Kansas, do Museu Ontário Real e do Herbário Nacional da Holanda.  

 

 
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Imagens (fotos e vídeos) estão disponíveis na Conservação Internacional, mediante solicitação.

 
Veja o relatório com os resultados da expedição here 

 
Saiba mais sobre o Programa de Avaliação Rápida here

 
Para mais informações: 

 
Patricia Malentaqui, Gerente Sênior de Imprensa, CI: +1 (703) 341-2471/ pmalentaqui@conservation.org

 
Ana Denman, Global Wildlife Conservation: +1 (512) 537-8951 / adenman@globalwildlife.org 

 
Nota para editores:

 
DESTAQUES SOBRE OS BENEFÍCIOS ADVINDOS DO SUDESTE DO SURINAME PARA A QUALIDADE DE VIDA DAS PESSOAS:

 
                      • Protege uma importante fonte de água doce para o país, para a região e para o mundo 
                        (usada para alimentação, transporte, energia, agricultura, mineração etc);

 
                      • Fornece suprimentos sustentáveis a partir de recursos florestais para o povo do Suriname 
                       (por exemplo, água, alimentos, medicamentos e recreação);

 
                      • Garante a resiliência de longo prazo dos recursos de água doce do Suriname, apesar da 
                       previsão de declínio da quantidade de água doce em outros lugares, em resposta à 
                       mudança do clima;

 
                      • Contrapõe as mudanças climática globais por meio da conservação de grandes extensões 
                       de florestas ricas em carbono

 
                      • Protege uma excepcional diversidade de espécies e ecossistemas saudáveis

 
                      • Representa um elevado potencial de crescimento econômico sustentável através do 
                       ecoturismo – um dos negócios que mais crescem no mundo.

 
Sobre o RAP

 
Lançado em 1990, o RAP distribui, por vários locais do mundo, pequenos grupos de cientistas especializados. Essas rápidas pesquisas avaliam cientificamente e rigorosamente a importância biológica das áreas visitadas, integrando a nossa compreensão das relações vitais entre a biodiversidade, o capital natural e o bem-estar humano.  As pesquisas do RAP levaram à descoberta de mais de 1.400 espécies novas para a ciência e para a criação, expansão ou melhoria da gestão de mais de 20 milhões de hectares de áreas protegidas terrestres e marinhas. Ao trabalhar com alunos e comunidades locais, o RAP também já treinou mais de 400 conservacionistas em países tropicais em todo o mundo.

 
Sobre a Conservação Internacional

 
A Conservação Internacional (CI) é uma organização privada, sem fins lucrativos, fundada em 1987 com o objetivo de promover o bem-estar humano fortalecendo a sociedade no cuidado responsável e sustentável para com a natureza – nossa biodiversidade global – amparada em uma base sólida de ciência, parcerias e experiências de campo. Como uma organização não governamental (ONG) global, a CI atua em mais de 40 países, distribuídos por quatro continentes. Em 1988, iniciou seus primeiros projetos no Brasil e, em 1990, se estabeleceu como uma ONG nacional. Possui escritórios em Belo Horizonte-MG, Belém-PA, Macapá-AP Brasília-DF e Rio de Janeiro-RJ, além de uma unidade avançada em Caravelas-BA. 

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