Governador do AP fala sobre um Estado verde

Em entrevista, ele diz como pretende proteger 15 milhões de hectares de florestas

Washington, 10 de junho de 2013 —

Ainda coberto por florestas intactas, o estado do Amapá na Amazônia brasileira tem dado passos enormes em direção ao desenvolvimento sustentável. A CI-Brasil trabalha com o governo do Amapá há 12 anos e  tem apoiado financeiramente e tecnicamente os seus esforços para proteger cerca de 15 milhões de hectares de floresta, equivalente a 3/4 do território do estado. 

 

Leia abaixo entrevista do governador do Amapá,  Camilo Capiberibe, durante visita recente a Washington, nos EUA, onde ele participou de evento promovido pela CI.

 

 Como o cultivo de açaí é um exemplo de desenvolvimento verde no Amapá?

 

Em primeiro lugar, o açaí é um produto fundamental da cultura do povo da Amazônia e do Amapá, em particular. Nós comemos acai todos os dias, então a importância primeira dele é alimentar a população da Amazônia. Mas, de alguns anos para cá, o açaí virou um produto muito importante para a nossa economia. O açaí movimenta anualmente só no estado do Amapá US$ 250 milhões e gera milhares de empregos em toda a sua cadeia produtiva. Desde o momento em que você apanha o açaí no meio da floresta, o transporte,  a revenda e a industralização. Ele tem um impacto enorme na economia hoje.

 

O açaí, para poder existir como um produto, ele precisa da floresta. Quando você explora o açaí, é uma maneira também de se preservar a floresta e ecossistema onde ele acontece em particular. Além do que, o açaí também dá um produto que é muito consumido no mundo inteiro, que é o palmito. Então, o açaí é inteiro um produto importante. A indústria do açaí, a agricultura, o extrativismo do açaí é, ao mesmo tempo, bom para a economia, bom para as pessoas e bom para a floresta.

 

Como a comunidade internacional pode ajudar a apoiar um modelo de desenvolvimento verde, em vez de destrutivo, no Escudo das Guianas, uma ampla região de florestas cobrindo grande parte do Norte da América do Sul?

 

No Amapá, 73% das nossas florestas são protegidas por lei, em maior ou menor grau. E nós temos uma população de 700 mil habitantes. O trabalho de preservar a Amazônia não é de uma pessoa ou de outra, é de toda essa comunidade que vive e respeita a natureza. Para nós podermos garantir essa preservação no futuro, é preciso compreender que a humanidade se desenvolveu ao preço da destruição das riquezas naturais e da biodiversidade do mundo inteiro.

 

Para nós podermos continuar preservando, é preciso reconhecer que preservar é um servico que esta sendo prestado para a humanidade. É um serviço fundamental que combate as mudanças climáticas, que ajuda a preservar o potencial de desenvolvimento de milhares de produtos que nem são conhecidos ainda, que estão la dentro da floresta e que podem no futuro ser, por exemplo, a cura para uma doenca rara.

 

Preservar isso não é fácil. Isso precisa ser reconhecido pela comunidade internacional para que nós possamos ter a valoração clara disso. Hoje não tem uma maneira de medir o esforço que está sendo feito pela população do Amapá e por outras populações que preservam o trabalho da preservacao. Esse é um importante recado: vamos enxergar o que vale isso e vamos valorizar, porque senão vai ser difícil sustentar a pressão que existe.

 

O capitalismo pressiona a nossa riqueza natural. As pressões são muito grandes. Nós estamos fazendo isso sozinhos. Podemos continuar e vamos continuar tentando fazer isso sozinhos, mas acho que se a comunidade internacional perceber isso, ela pode ajudar e cumprir o seu papel para garantir o futuro da floresta, da Amazônia.

 

Qual é o papel da natureza nas Metas de Desenvolvimento Sustentáveis que estão sendo formuladas atualmente pelas Nações Unidas?

 

A natureza tem um papel central na vida das pessoas. Sem a natureza, a gente não vai continuar existindo na Terra. Colocar a natureza como foco fundamental do desenvolvimento humano é um ponto de partida fundamental para mudar a maneira como as pessoas percebem a natureza.

 

O mundo mudou. Hoje, a sustentabilidade e as riquezas naturais são enxergadas como imprescindíveis para o nosso futuro. Futuro como humanidade, não apenas como um povo localizado na Amazônia, no Brasil. Todo mundo sabe da importância, mas é preciso reafirmar isso com mais clareza porque a situação que vive hoje a economia mundial de retração, de desemprego,  de dificuldade nos países mais desenvolvidos faz com que a agenda ambiental saia do primeiro plano.

 

E ela nao pode sair. Ela tem que estar em cima da mesa o tempo todo, porque a responsabilidade de garantir o futuro do planeta vai continuar existindo, seja na hora da crise ou não. Então quando as Nações Unidas fazem isso é muito importante. Combater a pobreza e desenvolver o ser humano com sustentabilidade e o único caminho que a gente tem a seguir.

 

Se o senhor superar esses desafios e alcançar a sua visão de sucesso, como gostaria que o seu Estado fosse conhecido pelo mundo?

 

Eu quero que o Amapá seja conhecido como um exemplo para a implementação de um programa piloto de desenvolvimento sustentável para a Amazônia, o Brasil e o mundo.

 

Nossas florestas são praticamente intactas, são extremamente ricas, e nós acreditamos que a historia do Amapá é conservação com desenvolvimento. É produção para conservação. Não é ter floresta por ter floresta. É ter floresta, melhorando a vida das pessoas e preservando para o futuro. Essa é a mensagem que o Amapá traz para Washington e a comunidade internacional. É assim que nós queremos ser vistos: como um povo que quer se desenvolver respitando a natureza.