Entrevista sobre a RPPN Serra da Pacavira

 

Belo Horizonte, 16 de agosto de 2013 —

O Programa de Incentivo às Reservas Particulares do Patrimônio Natural (RPPNs) da Mata Atlântica, parceria entre Conservação Internacional e Fundação SOS Mata Atlântica, está comemorando 10 anos em 2013! Nesse período o programa apoiou a criação de 361 novas reservas particulares – sendo 194 já reconhecidas – e a gestão de outras 101 reservas já existentes, num total de 56 mil hectares protegidos. As RPPNs são unidades de conservação criadas pela vontade do proprietário rural, que decide transformar sua terra em uma reserva e assume compromisso com a conservação da natureza.

Como parte das celebrações do aniversário do Programa, a Conservação Internacional está publicando até o fim do ano, entrevistas com proprietários de RPPNs que foram apoiados pela iniciativa. Esse é décimo post da série. Conheça a RPPN Serra da Pacavira, na entrevista com João Bosco Carbogim, seu proprietário. Localizada na Serra do Baturité, um trecho de Mata Atlântica no sertão do Ceará, a RPPN tem presença de várias espécies de aves endemicas e ameaçadas, como o papagaio-da-cara-suja. Boa leitura!

RPPN Serra da Pacavira

Área 33,56 hectares

Município Pacoti (CE)

Entrevistado: João Bosco Carbogim – Proprietário da RPPN

1)      Para você, qual a importância das Reservas Particulares do Patrimônio Natural, as chamadas RPPNs?

Diante da realidade do país, em que a legislação brasileira sofre um ataque brutal de desmate por parte, principalmente, dos ruralistas, acredito que as RPPNs são instrumentos viáveis de conservação. Elas mantêm a propriedade e ao mesmo tempo conjugam fatores básicos para a conservação, fatores como território, a vigilância sobre esse território e a destinação desse território para que a natureza possa seguir o seu curso.

As RPPNs são uma solução pragmática, pois elas se transformam em um instrumento viável economicamente e ambientalmente.  Ele não mexe, em geral, com grandes estruturas e investimentos depende da vontade da sensibilização de uma pessoa. Com isso ela se torna o mais eficiente e mais pragmático instrumento de conservação da natureza no Brasil.

2)      Você acha que as pessoas, sobretudo os proprietários de terra, em geral, sabem o que é uma RPPN e que qualquer cidadão pode criar uma?

Se você fizer uma pesquisa perguntando o que é uma RPPN, seguramente 99% da população não vai saber responder. É um instrumento conhecido de uma parcela muito pequena, a população não tem o esclarecimento do que se trata. Primeiro porque não existe nem mesmo a consciência da importância da conservação da natureza, mesmo diante de todos esses cataclismas naturais provocados pela aceleração do aquecimento global pelo uso do desmatamento. A visão do antropocentrismo que domina a cabeça das pessoas, achando que a espécie humana é o suprassumo, que todos giram ao seu redor, é uma visão criacionista. A Igreja consolida cada vez mais que o homem é o centro do universo, este é o terrível inimigo da conservação associado à superpopulação.

Não é possível, com essa mentalidade e com a superpopulação, manter programas de política de conservação coerentes e duradouros. As RPPNs sofrem, como em todas as questões ambientais, de uma carência muito grande de entendimento por parte da população e sensibilização dos órgãos públicos – que poderiam dar uma contribuição efetiva pra isso.

No meu caso específico, por exemplo, só se tornou viável porque houve o Programa de Incentivo às RPPNs da Mata Atlântica. A burocracia pra transformar uma área em RPPN é muito grande, além dos custos, é dolorosa. Além do mais, você tem algumas dificuldades dentro de casa, como o Ibama, a Secretaria de Meio Ambiente…

Nós,que cuidamos, e tentamos revelar pedacinhos da natureza pra conservação, sofremos um bombardeio por todos os lados. Daqui a alguns anos não teremos Mata Atlântica, não teremos Amazônia, não teremos mais nada, porque o capital é avassalador. Os caras destroem a natureza, se beneficiam dos serviços dela, meia dúzia de safados, e a sociedade que pague o pato. Como nós pagamos o pato pelo Rio Tietê que é poluído em São Paulo, pelas tragédias ambientais nos morros urbanos e etc.

Acredito que, neste contexto, as RPPNs sejam pragmáticas. Falta divulgação, falta conscientização. Ao invés de investir em campanhas e mais campanhas para partidos políticos safados, porque não reservam um espaço pra divulgar isso ai?

3)      Como e quando surgiu o seu interesse em criar uma RPPN?

Sou ambientalista desde criança. Já levei muito pau por defender a natureza e trabalhar pro meio ambiente, de levantar a bandeira da conservação. Tenho uma participação muito intensa nos movimentos ambientais, e desde então, tenho essa vontade na criação de RPPNs.Temos muitos projetos de conservação da natureza, sou presidente de duas associações – a Associação Paratinga e a Fundação Brasil Cidadão. Tenho livros publicados sobre isso, e uma série de artigos.

4)      Você teve dificuldades para a criação da sua RPPN? Se sim, quais?

Não, porque a propriedade já era muito mais que uma RPPN, uma área preservada. Sou uma exceção para dar opinião porque eu sou ambientalista, eu tenho conhecimento. Já briguei contra muitos atentados oficiais à natureza.

Não tive dificuldades porque as pessoas que estavam pela Mata Atlântica, fazendo essa “promoção”, me procuraram, pois sabiam que era um terreno fértil. Eu transformei a minha área em uma RPPN com a única preocupação de oficializar a propriedade.  A nossa RPPN é a primeira com resquícios de Mata Atlântica no Ceará. Foi tudo facilitado porque tínhamos uma equipe paga para fazer isso. Se tivesse me colocado a fazer sozinho, dentro da burocracia, não faria. Continuaria mantendo a área preservada porque eu gosto disso, nada mais.

5)      Como você conheceu o Programa de RPPNs da Mata Atlântica? Qual foi o seu interesse em participar do edital?

Não sei te dizer ao certo, já faz muito tempo, são 5 anos.

6)      Quantas edições você já participou? Quantas você ganhou?

Participei apenas de uma.

7)      Como os recursos do edital ajudaram sua propriedade e a Mata Atlântica?

Eu só tinha uma RPPN e abriu um edital de apoio ao plano de manejo.

8) Outros comentários?

Numa avaliação ecológica rápida, podemos estimar cerca de 250 espécies de aves no interior da RPPN. Nem sei quantos mamíferos, nem répteis existem, são muitos também. Mas é uma área que virou uma espécie de Oasis no meio do deserto. Embora seja vegetada, é uma área com muita pressão humana. Tenho que içar o tempo todo, brigando com caçadores, expulsando-os do terreno, fazendo cerco. Eles vão à noite e cortam a cerca, é uma dor de cabeça. Os órgãos públicos não dão a menor proteção.

Sobre Reservas Particulares

Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) é uma categoria de unidade de conservação criada pela vontade do proprietário rural, que decide transformar sua terra em uma reserva e assume compromisso com a conservação da natureza.

As RPPNs são importantes para proteger as riquezas naturais e ambientes históricos, além de ajudar na preservação da água, na regulação do clima, na limpeza do ar, no desenvolvimento de pesquisas científicas dentre outros serviços ambientais. Atividades recreativas, turísticas, de educação e pesquisa são permitidas na reserva, desde que sejam autorizadas pelo órgão ambiental responsável pelo seu reconhecimento.

Dessa forma, muitas RPPNs geram renda e conhecimento em sua região, com atividades como ecoturismo, educação ambiental e artesanato.

O Programa de Incentivo às RPPNs da Mata Atlântica apoia através de editais os proprietários interessados em criar suas reservas particulares. O programa é uma parceria entre as ONGs CI-Brasil e Fundação SOS Mata Atlântica.  O programa completa 10 anos em 2013, tendo apoiado nesse período a criação de 361 novas RPPNs – sendo 194 já reconhecidas – e a gestão de outras 101 reservas já existentes. Saiba mais:

Programa de Incentivo às RPPNs

Como participar

Outras informações: www.reservasparticulares.org.br e www.icmbio.gov.br/portal/servicos/crie-sua-reserva.html