Entrevista sobre a RPPN Feliciano Miguel Abdala

 

Belo Horizonte, 27 de junho de 2013 —

O Programa de Incentivo às  Reservas Particulares do Patrimônio Natural (RPPNs) da Mata Atlântica, parceria entre Conservação Internacional e Fundação SOS Mata Atlântica, está comemorando 10 anos em 2013! Nesse período o programa apoiou a criação de 361 novas reservas particulares – sendo 194 já reconhecidas – e a gestão de outras 101 reservas já existentes,  num total de 56 mil hectares protegidos. As RPPNs são unidades de conservação criadas pela vontade do proprietário rural, que decide transformar sua terra em uma reserva e assume compromisso com a conservação da natureza.

Como parte das celebrações do aniversário do Programa, a Conservação Internacional está publicando até o fim do ano, entrevistas com proprietários de RPPNs que foram apoiados pela iniciativa. Esse é o quinto post da série. Conheça a RPPN Feliciano Miguel Abdala e um pouco do trabalho da  Sociedade para Preservação do Muriqui na entrevista com Marcello Silva Nery. Boa leitura!

RPPN Feliciano Miguel Abdala

Área 957,57

Município Caratinga (MG)

Entrevistado: Marcello Silva Nery, da Sociedade para Preservação do Muriqui (organização não governamental que faz gestão da RPPN Feliciano Miguel Abdala). 

1)      Para você, qual a importância das Reservas Particulares do Patrimônio Natural, as chamadas RPPNs?

Eu acho que elas têm o grande papel de contribuir para o sistema público de unidade de conservação – federais, estaduais e municipais. Sendo uma categoria privada, ela acaba sendo um complemento para esse sistema de unidade de conservação. Muitas das RPPNs abrigam espécies endêmicas, que só ocorrem naquele local e ameaçadas, que às vezes não estão protegidas em alguma unidade de conservação. As RPPNs servem para aumentar a conectividade numa matriz de floresta fragmentada. 

2)      Você acha que as pessoas, sobretudo os proprietários de terra, em geral, sabem o que é uma RPPN e que qualquer cidadão pode criar uma?

Acredito que essa é uma informação que não é muito disseminada ainda, pelo menos na região. Nós vemos que a maior parte dos proprietários não sabe o que é, acredito que por falta de informação e de sua disseminação. A maioria dos proprietários quando você pergunta: Sua propriedade tem reserva legal?  Ele responde: Tem. Mas nem conhece o conceito de reserva legal. Pra ele, uma área de mata é uma reserva. Acredito que falta disseminar essa informação. 

3)      Como e quando surgiu o seu interesse em criar uma RPPN?

A RPPN tem um histórico antigo, foi transformada em Reserva Particular do Patrimônio Natural em 2001. Antes disso já havia um trabalho de pesquisa de longo prazo que ocorre até hoje,  iniciado em 1982 com os muriquis dessa reserva. Essa RPPN ficou muito conhecida em função dessa pesquisa com os primatas. Antes da propriedade ser transformada em reserva, ela veio sendo preservada pelo antigo dono com recursos próprios. Era chamada de Estação Biológica de Caratinga pelas pesquisas que eram desenvolvidas dentro da reserva. No ano de 2000 o seu Feliciano, dono da propriedade, faleceu e a família, pra dar continuidade a esse legado de proteção da área, resolveu transformá-la em uma Reserva Particular de Patrimônio Natural. 

4)      Você teve dificuldades para a criação da sua RPPN? Se sim, quais?

Não, justamente por causa desse histórico. Como a área já vinha sendo tratada como uma estação de pesquisa, já existia uma história de conservação da área que o próprio dono realizava desde que adquiriu a área em 1944. Não houve dificuldade e na verdade, foi um consenso da própria família em encontrar uma forma de dar continuidade ao legado do sr. Feliciano. 

5)      Como você conheceu o Programa de RPPNs da Mata Atlântica? Qual foi o seu interesse em participar do edital?

Nós temos um parceiro antigo, de 25 anos, que é a Conservação Internacional (CI-Brasil), parceira da SOS Mata Atlântica. Conhecemos o Programa, coordenado pela CI-Brasil e SOSMA por intermédio da CI-Brasil, por conta do corredor ecológico que existe entre essa RPPN e uma outra reserva que tem na região do leste mineiro, a Mata do Sossego. Em função da tentativa de se criar um corredor ecológico entre essas duas reservas, identificou-se essa necessidade de ter um viveiro. A maior ligação que temos com a SOS Mata Atlântica é através do fomento e da doação de mudas. (Clickarvore) 

6)      Quantas edições você já participou? Quantas você ganhou?

Uma participação no edital de plano e manejo. 

7)      Como os recursos do edital ajudaram sua propriedade e a Mata Atlântica?

Em relação ao edital de plano e manejo coordenamos, organizamos e planejamos os programas de desenvolvimento da RPPN. Foi feito também o zoneamento da reserva, integrado-o no plano e manejo da Mata do Sossego. Foi desenvolvido um programa integrado para ações em nível de corredor. A partir disto, vamos conseguir atingir um número maior de pessoas na região, inclusive para conscientização, mostrando o papel das RPPNs. 

8)      Você pretende participar de novas edições?

Nós não temos opinião definida. Essa questão depende muito da demanda que tivermos em um determinado momento. 

9)      Fale sobre o Caratinga + 30 anos.

O  Caratinga + 30 anos é uma iniciativa de longo prazo, que neste ano faz 30 anos. Houve um evento de comemoração desse projeto, um dos únicos com esse escopo de longo prazo no Brasil – e até no mundo. A RPPN Feliciano Miguel Abdala abriga uma das maiores e bem conhecidas populações de muriquis, existem mais de 300 indivíduos na reserva, mas existem alguns parques maiores onde não há uma estimativa da população.

Sobre Reservas Particulares

Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) é uma categoria de unidade de conservação criada pela vontade do proprietário rural, que decide transformar sua terra em uma reserva e assume compromisso com a conservação da natureza.

As RPPNs são importantes para proteger as riquezas naturais e ambientes históricos, além de ajudar na preservação da água, na regulação do clima, na limpeza do ar, no desenvolvimento de pesquisas científicas dentre outros serviços ambientais. Atividades recreativas, turísticas, de educação e pesquisa são permitidas na reserva, desde que sejam autorizadas pelo órgão ambiental responsável pelo seu reconhecimento.

Dessa forma, muitas RPPNs geram renda e conhecimento em sua região, com atividades como ecoturismo, educação ambiental e artesanato.

O Programa de Incentivo às RPPNs da Mata Atlântica apoia através de editais os proprietários interessados em criar suas reservas particulares. O programa é uma parceria entre as ONGs CI-Brasil e Fundação SOS Mata Atlântica.  O programa completa 10 anos em 2013, tendo apoiado nesse período a criação de 361 novas RPPNs – sendo 194 já reconhecidas – e a gestão de outras 101 reservas já existentes. Saiba mais: