Entrevista com o proprietário da RPPN Maragato

 

Belo Horizonte, 04 de julho de 2013 —

O Programa de Incentivo às Reservas Particulares do Patrimônio Natural (RPPNs) da Mata Atlântica, parceria entre Conservação Internacional e Fundação SOS Mata Atlântica, está comemorando 10 anos em 2013! Nesse período o programa apoiou a criação de 361 novas reservas particulares – sendo 194 já reconhecidas – e a gestão de outras 101 reservas já existentes, num total de 56 mil hectares protegidos. As RPPNs são unidades de conservação criadas pela vontade do proprietário rural, que decide transformar sua terra em uma reserva e assume compromisso com a conservação da natureza.

Como parte das celebrações do aniversário do Programa, a Conservação Internacional está publicando até o fim do ano, entrevistas com proprietários de RPPNs que foram apoiados pela iniciativa. Esse é o sexto post da série. Conheça a RPPN Maragato, em Passo Fundo (RS) e seu trabalho de educação ambiental na entrevista com Rogério Benvegnu Guedes. Boa leitura!

RPPN Maragato

Área 41,56 hectares

Município Passo Fundo (RS)

Entrevistado: Rogério Benvegnu Guedes – Proprietário da RPPN Maragato

1)      Para você, qual a importância das Reservas Particulares do Patrimônio Natural, as chamadas RPPNs?

Somos suspeitos para falar. Eu vejo como um grande avanço! O Brasil, pelo território que tem, pela dificuldade do governo de manter as Unidades de Conservação e de criar novas áreas, passa por esse mito de que, com a criação da RPPN, você está perdendo a propriedade. Acho fundamental o cidadão comum, empresas, pessoas físicas e jurídicas poderem atuar e contribuir.

No nosso caso, a RPPN está dentro de uma área urbana, a maior área urbana de Passo Fundo. É uma floresta urbana que está junto com outros fragmentos. Preserva a última microbacia que ainda está em boas condições. É muito significativo, porém, há um desconhecimento muito grande da sociedade, e principalmente dos órgãos públicos sobre a questão do meio ambiente. O pessoal não valoriza, acha bonito, mas não atua. Eu vejo que é a oportunidade do cidadão de poder contribuir com este esforço de preservação. Se for fazer o comparativo com a estrutura pública, há uma deficiência de gestão, de troca com a sociedade. Nessa questão da educação ambiental fazemos toda a diferença. Todos temos que atuar em prol ao meio ambiente.

2)      Você acha que as pessoas, sobretudo os proprietários de terra, em geral, sabem o que é uma RPPN e que qualquer cidadão pode criar uma?

Não, acho que não. Poucos têm esse conhecimento, e acredito que agora, com a questão do código florestal, vamos começar a tornar mais público o conceito de RPPN. Infelizmente as pessoas não veem a propriedade como um patrimônio, associam à questão da renda, da posse de área. São poucos os que pensam que a responsabilidade de preservação é nossa.

3)      Como e quando surgiu o seu interesse em criar uma RPPN?

Eu cuidava da propriedade do pai da minha mãe, meu avô, e via que a cidade ia crescendo em torno dela. Ficamos sabendo que podíamos criar uma RPPN. Na época não sabia o que era, e fui me informar. Levamos seis anos junto ao IBAMA para regularizar a documentação.

4)      Você teve dificuldades para a criação da sua RPPN? Se sim, quais?

Sim, principalmente pela burocracia do IBAMA na época. O processo tinha que passar pelo IBAMA do Rio Grande do Sul pra depois ir para o IBAMA em Brasília. Hoje modernizou, está bem diferente.  Os processos estão mais avançados, agora são online. Nós acompanhamos, sabemos onde parou, e o que está faltando. Na época era tudo pelo Correio, por ofício. Ninguém sabia. Ninguém ajudava. Tínhamos dificuldades que ninguém dava muita importância.

5)      Como você conheceu o Programa de RPPNs da Mata Atlântica? Qual foi o seu interesse em participar do edital?

Eu conheci em 2007, no Congresso Brasileiro das Unidades de Conservação, em Foz do Iguaçu. Nos inscrevemos no 6° edital, mas não passamos. No 7° edital nos inscrevemos novamente e fomos contemplados.

6)      Quantas edições você já participou? Quantas você ganhou?

Passamos no 6º e 7° edital, na categoria elaboração de Plano de Manejo. No 10° edital, na categoria Implementação. Participamos também das três últimas edições do Viva Mata.

7)      Como os recursos do edital ajudaram sua propriedade e a Mata Atlântica?

Todos são dispostos e acessíveis nas organizações envolvidas, CI-Brasil  e SOS Mata Atlântica. Qualquer dúvida a Mariana, coordenadora do Programa de Incentivo às RPPN, nos ajuda. A própria oportunidade de participar do Viva a Mata na condição de parceiros do Programa foi muito importante e nos ajudou muito. Conhecemos várias pessoas da área. O fato de termos essa parceria e reconhecimento com o Programa é tudo para nós!

Em relação à RPPN mudou muito depois de termos conseguido fazer o plano de manejo.  O 7º edital foi um divisor de águas, principalmente na questão do reconhecimento.

8)      Qual sua Opinião sobre as atividades realizadas?

Na minha opinião, são uma referência. Sempre tivemos apoio no que precisamos.

9)      Você pretende participar de novas edições?

Com certeza! Estamos aguardando os novos editais. Estamos na fase de implementação do Plano e Manejo, precisamos de um edital que contemple isto.

9)     Você tem comentários adicionais?

O que a gente faz aqui, efetivamente, é trabalho de educação ambiental nas escolas de Passo Fundo e região. Através de agendamento com grupos, realizamos a palestra que dura em torno de 40 minutos no Centro de Visitantes da Reserva – um antigo galpão que existia na área rural. Faz dez anos que recebemos grupos e apoiamos a pesquisa quando há procura.  Na faculdade de Passo Fundo temos o curso de Ciências Biológicas, quando há interesse de professores e pesquisadores, disponibilizamos a RPPN para pesquisas. Além de termos uma hospedaria pra 40 pessoas que, eventualmente, utilizamos para receber grupos.

Sobre Reservas Particulares

Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) é uma categoria de unidade de conservação criada pela vontade do proprietário rural, que decide transformar sua terra em uma reserva e assume compromisso com a conservação da natureza.

As RPPNs são importantes para proteger as riquezas naturais e ambientes históricos, além de ajudar na preservação da água, na regulação do clima, na limpeza do ar, no desenvolvimento de pesquisas científicas dentre outros serviços ambientais. Atividades recreativas, turísticas, de educação e pesquisa são permitidas na reserva, desde que sejam autorizadas pelo órgão ambiental responsável pelo seu reconhecimento.

Dessa forma, muitas RPPNs geram renda e conhecimento em sua região, com atividades como ecoturismo, educação ambiental e artesanato.

O Programa de Incentivo às RPPNs da Mata Atlântica apoia através de editais os proprietários interessados em criar suas reservas particulares. O programa é uma parceria entre as ONGs CI-Brasil e Fundação SOS Mata Atlântica.  O programa completa 10 anos em 2013, tendo apoiado nesse período a criação de 361 novas RPPNs – sendo 194 já reconhecidas – e a gestão de outras 101 reservas já existentes. Saiba mais:

Programa de Incentivo às RPPNs

Outras informações: www.reservasparticulares.org.br e www.icmbio.gov.br/portal/servicos/crie-sua-reserva.html