Entrevista com a proprietária da RPPN Natural Brejo

 

Belo Horizonte, 06 de junho de 2013 —

Entrevista com a proprietária da RPPN Natural Brejo 06/06/2013

O Programa de Incentivo às Reservas Particulares do Patrimônio Natural (RPPNs) da Mata Atlântica, parceria entre Conservação Internacional e Fundação SOS Mata Atlântica, está comemorando 10 anos em 2013! Nesse período o programa apoiou a criação de 361 novas reservas particulares – sendo 194 já reconhecidas – e a gestão de outras 101 reservas já existentes, num total de 56 mil hectares protegidos. As RPPNs são unidades de conservação criadas pela vontade do proprietário rural, que decide transformar sua terra em uma reserva e assume compromisso com a conservação da natureza.

Como parte das celebrações do aniversário do Programa,  a Conservação Internacional está publicando até o fim do ano, entrevistas com proprietários de RPPNs que foram apoiados pela iniciativa. Esse é o terceiro post da série. Conheça a RPPN Reserva Natural Brejo e saiba mais sobre a conservação em terras privadas, na entrevista com Cleide Iara. Boa leitura!

RPPN Reserva Natural Brejo

Área: 52,00 hectares Município: Saloá (PE)

Entrevistado: Cleide Iara Andrade da Silva – Proprietária da RPPN Reserva Natural do Brejo

1) Para você, qual a importância das Reservas Particulares do Patrimônio Natural, as chamadas RPPNs?

A importância da reserva é a proteção do meio ambiente. Detectamos que a área estava desprotegida e desmatada e, com a criação da reserva tínhamos a garantia de que as pessoas no entorno tivessem mais consciência. Antes a população não tinha a conscientização de preservar o local. Achavam que, por ser área privada iam destruir tudo. Então começamos com um trabalho de conscientização e preservação do habitat.

2) Você acha que as pessoas, sobretudo os proprietários de terra, em geral, sabem o que é uma RPPN e que qualquer cidadão pode criar uma?

Aqui no nordeste, onde eu estou inserida, as pessoas ainda não têm esse conhecimento. Tanto que tenho dois vizinhos que possuem uma área significativa, que seria importante criar um RPPN, mas eles entendem de outra forma. “Ah, ela vai querer também que a gente dê a nossa terra para o Governo”. Eles não têm a consciência de que é para preservar. 

3) Como e quando surgiu o seu interesse em criar uma RPPN?

Quando comprei a propriedade, a comunidade vizinha estava acabando com a mata.Tínhamos uma pequena área que já estavam desmatando. A minha preocupação foi “Meu Deus, como eu vou preservar isto aqui?.” Comecei a pesquisar o que poderia ser feito e fui ao IBAMA. Eles me orientaram dizendo que eu poderia fazer uma Reserva Particular do Patrimônio Natural , uma RPPN. Meu enteado fazia mestrado na área ambiental e pedi a ele orientação. 

4) Você teve dificuldades para a criação da sua RPPN? Se sim, quais?

Sim. O IBAMA aqui de Pernambuco não me deu muita atenção e me passou poucas orientações. Eram muitos documentos exigidos, e não avisavam a relação de material necessário. Quando entregávamos toda a documentação, diziam que faltava alguma coisa. Poderia ser muito mais simples. 

5) Como você conheceu o Programa de RPPNs da Mata Atlântica? Qual foi o seu interesse em participar do edital?

Eu conheci através do meu enteado que trabalha em Brasília. Ele é advogado e estava fazendo mestrado em educação ambiental. Foi ele que me trouxe o folheto e explicou tudo. 

6) Quantas edições você já participou? Quantas você ganhou?

Já participei para criação de Reserva e Plano de Manejo. O da reserva eu não sabia que tinha recursos, fiz com dinheiro próprio. Fui contemplada apenas em um edital, o do plano de manejo. 

7) Qual foi o apoio do programa à sua reserva?

Elaboração do plano de manejo. 

8) Qual sua opinião sobre as atividades realizadas?

Acho muito importante. Depois temos a consciência, é importante, pois irá garantir a sustentabilidade da área e a consciência que as pessoas não têm. O entorno da nossa comunidade é muito pobre, não tem consciência nenhuma sobre meio ambiente. Eles achavam “isso é pra usar mesmo, é pra matar, é pra destruir.” Com a RPPN há a garantia de conscientização. 

Fora isso, além do próprio apoio da Conservação Internacional e SOS Mata Atlântica, tive o trabalho de ir de casa em casa para falar para as pessoas que temos que preservar o meio ambiente, que precisamos cuidar. Agora mesmo, com essa seca no Nordeste acabaram a água aqui, só tem água na reserva. Restou água na minha propriedade por conta da preservação das matas, temos seis fontes de água mineral. A questão de preservar a mata é que dá segurança para os mananciais permanecerem vivos.

Outro exemplo para ilustrar foi que esse ano e ano passado eles fizeram o seguinte: Um vizinho vendeu a água da minha propriedade que beneficia outras propriedades. Cortaram uma veia da bacia hidrográfica de mananciais hídricos e desviaram uma veia para outro município. Eu tive o maior trabalho de denunciar, isso foi para o Ministério Público. Uma obra gigantesca para levar a água da nossa fonte pra outro município e todas as obras acabaram embargadas. 

Todo esse processo interferiu muito na fonte de água que tenho, tanto que está secando. Esses dias mesmo faltou água. A escassez de água está grande. Nunca aconteceu isso. Há 25 anos teve uma seca na propriedade que abastecia as pessoas do município mais próximo. E esse ano, com essa água desviada, tivemos problema de falta d’água. 

9) Você pretende participar de novas edições?

Pretendo!

Sobre Reservas Particulares

Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) é uma categoria de unidade de conservação criada pela vontade do proprietário rural, que decide transformar sua terra em uma reserva e assume compromisso com a conservação da natureza.

As RPPNs são importantes para proteger as riquezas naturais e ambientes históricos, além de ajudar na preservação da água, na regulação do clima, na limpeza do ar, no desenvolvimento de pesquisas científicas dentre outros serviços ambientais. Atividades recreativas, turísticas, de educação e pesquisa são permitidas na reserva, desde que sejam autorizadas pelo órgão ambiental responsável pelo seu reconhecimento.

Dessa forma, muitas RPPNs geram renda e conhecimento em sua região, com atividades como ecoturismo, educação ambiental e artesanato. 

O Programade Incentivo às RPPNs da Mata Atlântica apoia através de editais os proprietários interessados em criar suas reservas particulares. O programa é uma parceria entre as ONGs CI-Brasil e Fundação SOS Mata Atlântica. O programa completa 10 anos em 2013, tendo apoiado nesse período a criação de 361 novas RPPNs – sendo 194 já reconhecidas – e a gestão de outras 101 reservas já existentes. 

Saiba mais:

? Programa de Incentivo às RPPNs

? Como participar

? Outras informações: www.reservasparticulares.org.br ewww.icmbio.gov.br/portal/servicos/crie-sua-reserva.html