Jovem brasileira ganha prêmio mundial de conservação

No Dia do Índio, a CI traz uma entrevista com um dos ganhadores do prêmio “Indigenous and Traditional Peoples Conservation 2012”. De origem indígena, Diana Nascimento diz que é hora de cruzar os conhecimentos

Brasília, 19 de abril de 2012 —

Diana Nascimento é uma gaúcha de 23 anos que atualmente mora em Matinhos, no Paraná. A jovem indígena é da etnia Kaingang e nasceu na Terra Indígena (TI) Nonoai, no norte do Rio Grande do Sul. Lá, onde também vive sua família, a jovem cursa durante as férias o curso de Gestão Ambiental da Universidade Federal do Paraná (UFPR). Diana foi um dos três ganhadores do prêmio “Indigenous and Traditional Peoples Conservation 2012”, prêmio patrocinado pela Conservação Internacional (CI) e pela Convenção da Diversidade Biológica (CDB). Também foram contemplados a queniana Ikal Angelei e o peruano Zenón Gomel Apaza. Para concorrer os candidatos precisavam inscrever um projeto de pesquisa envolvendo a temática das comunidades tradicionais. Cada um dos escolhidos ganhará uma bolsa no valor de U$ 30.000,00 (aproximadamente, R$ 55.119,00). Metade deve ser usada para aprimoramento profissional e a outra no projeto. Veja abaixo a entrevista que Diana Nascimento concedeu à CI-Brasil.

1. O que significou para você ter ganhado o prêmio? 

Significou a realização de um projeto que venho tentando por em prática há um bom tempo, e por falta de financiamento e incentivo, era muito difícil criar parcerias para sua realização. Com essa bolsa poderei - da forma que mais amo - ajudar na proteção da biodiversidade, na gestão e na proteção do território Kaingang. 

Estou muito feliz em ter sido um dos três escolhidos entre mais de 140 candidatos. Tenho percebido que é possível e enriquecedor cruzar conhecimentos. Tudo isso me auxiliará no desenvolvimento de projetos como esse ou em outros que ajudem na revitalização da cultura Kaingang, como oficinas, palestras, trilhas, rodas de conversas com anciãos. A abordagem socioambiental, aplicada à gestão de terras indígenas, é uma estratégia que se torna cada vez mais uma forma não só de manter viva a cultura, mas principalmente manter vivo o modo de vida e relação com o meio ambiente.

2. Qual é o trabalho que você faz com os povos tradicionais? 

Já venho há algum tempo trabalhando no projeto “Recuperação e restauração etnoambiental em terras indígenas”. Venho estudando metodologias para entrelaçar conhecimentos científicos adquiridos na universidade com os conhecimentos tradicionais. Trabalho em conjunto com a comunidade, enriquecendo o projeto cada vez mais.  Na minha Terra Indígena, há um parque ambiental  que corresponde a uma área de 17.499 ha, a segunda maior área contínua de preservação da Mata Atlântica do Rio Grande do Sul. Esse parque só foi devolvido às terras indígenas em 1999. Houve uma diminuição bastante significativa dos bancos genéticos de sua biodiversidade, devido à exploração madeireira e à pressão humana não-indígena.  Principalmente de colonos que moram no entorno, que desejam aumentar suas áreas de plantio (monocultura de soja). É nesse cenário que surgiu meu desejo de fazer este projeto de recuperação e restauração. Será realizado inicialmente com a comunidade da Terra Indígena Nonoai, e envolverá desde seu inicio a comunidade e as escolas indígenas, com a escolha das espécies a serem usadas na recuperação, as áreas a serem recuperadas, de que forma isso poderá ser feito etc. 

3.       De onde surgiu esse interesse de trabalhar com os povos tradicionais? 

Eu sempre tive o sonho de estudar, me formar, e voltar pra minha terra. Cresci vendo meu povo lutar por seus direitos, direitos esses que na maioria das vezes não são respeitados ou são desconhecidos para a maioria dos indígenas que estão nas aldeias, e o fato de eu querer sair pra estudar, desde sempre foi com o intuito de conhecer esses direitos e trazê-los para meu povo. Como sempre gostei da área ambiental, é através dela que venho tentando ajudá-los na proteção da biodiversidade e do território que foi conquistado por meio de grandes e longas lutas.  

4       No Dia do Índio, como você vê o tratamento do governo dado aos povos tradicionais e sua cultura? 

Certamente tem se melhorado em certas áreas se tratando da questão Indígena, mas estamos presenciando um triste retrocesso nas políticas indígenas, devido.. como o projeto de Lei PEC 215, que está em andamento no Congresso. Parlamentares querem alterar a Constituição Federal para garantirem a ampliação de lucros de um pequeno grupo que já é intensamente privilegiado de latifundiários e grandes empresas transnacionais que atuam no país. Essa proposta assim como [a usina] de Belo Monte e outros empreendimentos de menor porte afetam comunidades tradicionais e que na maioria das vezes a mídia não mostra. É uma afronta aos indígenas e seus direitos. É uma tentativa de extermínio aos territórios e, consequentemente, das culturas indígenas, quando deveriam estar melhorando as políticas para que se preserve ao máximo a diversidade cultural, já que uma boa parte dessa riqueza já foi perdida, ou melhor, tirada de nós.

5.       Que mensagem você deixa para as pessoas que trabalham com povos tradicionais?

Para se trabalhar com uma comunidade tradicional ou para que os projetos dêem certo nessas comunidades, antes de tudo, deve-se trabalhar em conjunto com as comunidades, respeitando e valorizando seus conhecimentos. A maioria dos órgãos externos chega com projetos prontos sem dar atenção ou, muitas vezes, sem conversar com os principais interessados. Está na hora de mudar essa ideia de que só é conhecimento o conhecimento cientifico. É hora de cruzar os conhecimentos, enxergar de forma mais intercultural e diversificada, parar de colocar uma cultura acima da outra e pôr em prática projetos conjuntos, respeitando o conhecimento do outro e agregando esses valores. Somente assim, dará certo o trabalho em comunidades tradicionais e conseguiremos fazer algo de sucesso.