Uma vez por ano, o deserto de Namaqualand, na parte ocidental da
África do Sul, muda de cor. À medida que nos afastamos da Cidade do Cabo e que a vegetação torna-se cada vez mais rasteira e árida, manchas amarelas, violetas, laranjas e vermelhas confundem nossos olhos. Eram flores – milhões, bilhões de flores.
Uma contínua faixa de margaridas rasteiras acompanhava a beira da estrada – é como passar por um acostamento todo colorido. Do outro lado da cerca que separa a rodovia do campo, florezinhas roxas competem por espaço com os pedregulhos. Mais adiante, o barranco está coberto por uma vasta mancha cor de laranja.
Quando passei pela mesma estrada há cinco anos e meio atrás, em pleno verão, tudo parecia estar chamuscado. Por causa do calor intenso, a sensação era de desolação, quase morte. Mas agora, em setembro, graças às chuvas de inverno, que trazem umidade e vida à região, assisto, nesse início de primavera austral, a um verdadeiro festival de flores silvestres. Uma daquelas surpresas que só a Natureza apronta.
Enquanto os quilômetros passavam rapidamente – a estrada parece ser uma reta sem fim – Richard Cowling, um dos maiores botânicos sul-africanos, me explica que nessa época do ano, entre final de agosto e início de setembro, as plantas da região entram em êxtase. “Tudo isso é puramente sexual. As plantas precisam ser polinizadas, sabem que têm pouco tempo para isso e provocam essa explosão de flores para atrair insetos”.
Esse fenômeno natural foi descoberto recentemente por viajantes estrangeiros e traz crescentes benefícios aos habitantes locais. Niel McGregor, um fazendeiro de Nieuwoudtville, deixa suas ovelhas de lado para se ocupar dos visitantes. Niel os leva pela sua fazenda em um velho ônibus de 40 anos de idade e fala das táticas que cada planta elaborou para sobreviver em uma região tão inóspita. Durante esses dois meses, todos os seus dias estão comprometidos com as flores e com os que viajam de longe para vê-las.
É no Parque Nacional Namaqualand que a explosão de cores chegou ao ápice. Vários campos, com alguns quilômetros quadrados, estavam cobertos por flores douradas. Penso até que alguém deu uma mãozinha, jogando sementes e passando um trator, porém o pessoal do parque me garante que todas as flores eram silvestres e que a cada ano a mistura de cores é diferente.
A singularidade de Namaqualand não pára por aí. Quando passamos pela região chamada de Knersvlakte (palavra que traduzida significa “ranger os dentes”), saímos do asfalto em direção a um pequeno monte que, de longe, parece ser coberto por um cascalho branco. Rodamos durante mais ou menos meia hora, envoltos em muito pó. Quando paramos a camioneta, noto que as pedrinhas de dois a três centímetros, todas muito parecidas, são puro quartzo. Mesmo assim, pergunto-me, em silêncio, se valeu a pena comer e respirar tanta poeira apenas para ver pedrinhas brancas. Bonitinhas, mas e daí? Richard pede que eu saía da estrada para caminhar um pouco sobre as pedrinhas brancas e me agache alguns metros adiante. “Tente encontrar os verdadeiros tesouros de Namaqua”, diz.
Meus olhos se acostumam à intensa luminosidade e o foco se aproxima da superfície. Como se eu usasse uma lente macrofotográfica, percebo que, entre as pedrinhas, brota da terra uma profusão de formas que não parecem ser minerais. Arrisco e com cuidado toco uma bolinha verde-clara, do tamanho de um polegar. É macia e cheia de água.
“São as plantas suculentas de Namaqualand. Você encontrará espécies que vivem somente entre estas pedrinhas e em nenhuma outra parte do mundo, nem mesmo a 100 metros daqui” proferiu Richard, consciente da minha surpresa. “Procure outras”. Quando meus olhos entendem o que devem procurar, varrem o chão em busca dessas formas tão inusitadas. Na verdade, todas essas plantinhas minúsculas são mais parecidas com as próprias pedras que as rodeiam. Não preciso sair do lugar para descobrir uma dúzia de espécies diferentes, todas sobrevivendo nesse deserto de cascalho e utilizando ao máximo a pouca umidade existente. Para isso, evitam ter folhas e tratam de armazenar a água em seu pequeno corpo.
“Uma vez por ano, elas também precisam de sexo” explica Richard, mostrando uma planta suculenta onde três flores brancas, de pétalas muito finas, que parecem brotar do solo. E por que tantas espécies entre as pedras? Por causa do intenso calor – no verão são 15 horas de sol forte, de horizonte a horizonte –, essas plantinhas evoluíram sentindo-se mais à vontade ao lado das pedrinhas brancas do que em um campo aberto. Ao contrário de uma pedra negra (que concentra e acumula calor na sua superfície), uma pedra branca reflete o calor. Em conseqüência disso, a temperatura ao lado de uma pedra branca, mesmo se pequenina, pode ter uma diferença de 2 a 3 graus centígrados a menos. Além disso, como as pedras brancas esfriam mais rápido, podem formar uma minúscula gota de condensação. Essa gotinha de água escorre, penetra no solo e isso é o suficiente para alimentar as plantinhas que estão ao seu redor.
Levanto-me com cuidado e regresso à camioneta, medindo meus passos para não pisar em nenhuma planta suculenta nem deslocar qualquer pedacinho de quartzo. Cai a ficha de que tudo tem uma função vital na natureza, até mesmo uma pedrinha branca, que promove vida no deserto.
Artigo publicado originalmente em dezembro de 2004 na "Edição Especial de VIAGEM" (Brasil)